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8/2/2010
Petrobras já planeja novo duto para gás na Amazônia
Fonte: Valor Econômico
Obra vai levar produto da reserva de Juruá até o polo de Urucu.

O gás natural de Urucu, província petrolífera em plena selva Amazônica, já jorra em Manaus desde novembro, depois de percorrer 660 km no gasoduto Urucu-Coari-Manaus. Até setembro, passará a ser usado para gerar energia elétrica, substituindo os óleos poluentes das termelétricas. Em busca de mais gás na Amazônia, a Petrobras prepara-se para um novo desafio: explorar a reserva de Juruá, a 170 km de Urucu.

Outro gasoduto será necessário para levar o gás de Juruá até as zonas de consumo. Como na obra do Urucu-Manaus, terá de cruzar rios, igarapés, morros e mata virgem. O trajeto previsto tem mais de 120 km entre o campo de Araracanga/Juruá, que fica no município de Carauari, e a base de processamento de óleo e gás do Polo Arara, em Urucu. Em dezembro, a companhia obteve a licença ambiental; agora, começa a ir ao mercado para fazer as primeiras licitações de fornecimentos de serviços e equipamentos.

As lições tiradas na montagem do duto Urucu-Manaus serão de grande proveito no Juruá-Urucu para vencer obstáculos de uma obra que é sensível pelo fato de se localizar numa floresta tropical que é símbolo mundial, explica Luiz Ferradans Mata, gerente-geral na Petrobras da Unidade de Negócios de Exploração e Produção da Amazônia. Ele diz que, preliminarmente, as características da região apontam para uma obra menos complexa. Tem extensão menor e a topografia não mostra tantos rios pela frente.

Ferradans evita dar mais detalhes de engenharia, pois se trata de uma empreitada a cargo da diretoria de Gás e Energia da estatal. Pontua que das lições aprendidas é possível elaborar um estudo prévio mais detalhado, considerando períodos de cheias e vazantes da região aliado a novas soluções tecnológicas. Procurada pelo Valor durante toda a semana, a diretoria de Gás e Energia não dispôs nenhum executivo para dar informações sobre os dois gasodutos.

Os estudos preliminares, segundo o gerente-geral, apontam potencial de extração expressivo em Juruá. Os quatro poços iniciais de exploração na década de 70 mostraram capacidade para 500 mil metros cúbicos cada um. "Pode até ser mais alto", afirma, mas lembra que depende das condições de aproveitamento nas instalações do Polo Arara.

Uma sonda remota de prospecção será deslocada de Urucu para lá. Se as estruturas dos poços estiverem em boas condições de aproveitamento, a Petrobras poderá elevar, com esse projeto, que entrou no planejamento estratégico da companhia em 2007, em pelo menos 2 milhões de metros cúbicos sua produção de gás na região.

A reserva Juruá não se trata de uma descoberta nova. É de 1978 e leva o nome do rio que passa na redondeza do campo. Localiza-se também na bacia do rio Solimões, como Urucu, encontrada oito anos depois. Mas a novata mostrou na época ser mais viável de ser primeiramente explorada. Pelo seu porte, parece ser isso mesmo: dali são extraídos 10,5 milhões de metros cúbicos diários. Sem o gasoduto até Manaus, porém, o gás era (e grande parte ainda o é) mandado de volta por reinjeção ao local de origem - 2,5 mil metros abaixo da terra.

Comparado aos 24 milhões de metros cúbicos médios por dia de gás que o Brasil trouxe em 2009 dos campos da Bolívia, Urucu e Juruá formam uma fonte de produção importante. E vão suprir a demanda da Amazônia, que está muito distante de outras fontes, como as bacias de Campos e Santos. Ferradans informa que o investimento no projeto Juruá - extração, tratamento do gás e gasoduto - começa a ser definido e depende da análise de vários fatores. "Talvez seja necessária a construção de uma Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) lá, como as de Urucu".

Tirar o gás no meio da floresta não é uma tarefa simples. Mais complicado ainda é transportá-lo até áreas distantes de consumo. O gasoduto Urucu-Manaus tornou-se um sonho desde que petróleo e gás jorraram em Urucu em 1988. No início, para levar o óleo até Manaus, foram usadas pequenas barcaças navegando no sinuoso e estreito rio Urucu. A partir de 1997, passou a ser escoado por um oleoduto estendido até as margens do Solimões, em Coari, onde se instalou uma base de armazenagem e despacho. Além do óleo, também GLP (gás de cozinha), que passou a suprir o Norte e Nordeste. Daí, óleo e GLP seguiam em navios petroleiros e butaneiros para Manaus. O destino do gás natural só virou realidade em 2006, após muita discussão sobre o impacto ambiental e sobre dezenas de comunidades ao longo da obra do gasoduto.

"Foi um marco da engenharia de construção da Petrobras para poder escoar o óleo, o gás e o GLP da selva, na área de maior diversidade ambiental do planeta", diz Ferradans. Para ele, operar num "santuário ecológico" fez com que a estatal enfrentasse desafios comparáveis à exploração de óleo do mar, em águas profundas.

A obra, dividida em três trechos, enfrentou grandes obstáculos de engenharia pela frente. Segundo relatos, as maiores dificuldades ocorreram na travessia dos rios Solimões e Negro e de um dos lagos da região, o Manacapuru, entre Coari a Manaus. Nesse trecho de quase 400 km, que mobilizou 8,9 mil trabalhadores, o gasoduto passou por cima e por baixo de terra firme e movediça. Para cruzar rios, igarapés e lagos foram feitos furos de até 20 metros abaixo do leito das águas. Tubo a tubo, de 12 metros de comprimento e 20 polegadas de diâmetro, foi soldado um ao outro, em aço de alta resistência e protegidos contra corrosão.

Uma balsa especial, com 250 tripulantes e dotada de um guindaste capaz de erguer mil toneladas, foi usada no rio Negro para estender tubulações. Nesse ponto, a obra só parou durante o Festival de Parintins que ocorre no fim de junho, quando é grande o movimento de barcos no rio. Também recorreu-se a helicópteros para transportar tubos, da mesma forma que se faz com toras de madeira em florestas do Canadá.

Para abrir o traçado na floresta, que era seguido pelos tratores, experientes mateiros da região foram recrutados. Eles marcavam com fitas as árvores que deviam ser preservadas, como castanheiras e seringueiras. Muitas vezes cruzavam com venenosas surucucus e os temidos queixadas - porcos-do-mato que avançam em correria e não poupam nada nem ninguém pela frente. "É subir na árvore e deixar passar", relatou um mateiro.

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Termelétricas vão receber combustível limpo.

A chegada do gás natural para as termelétricas de Manaus vai mudar a matriz energética do Amazonas, que apesar de ser banhado pela maior bacia hidrográfica do mundo, hoje tem o suprimento de energia garantido em sua maior parte por óleo combustível altamente poluente e óleo diesel. Juntas, essas usinas têm potência para gerar 1.500 MW. A conversão dessas térmicas para gás, abandonando o óleo, também vai ajudar a reduzir a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), subsídio pago por todos os clientes das concessionárias elétricas do país usado na compra do óleo usado para gerar energia no Norte. Para este ano, a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou valor provisório de R$ 837 milhões para a CCC, só no primeiro trimestre. Nas contas da Petrobras, a economia é de US$ 1 milhão por dia.

Quem ganha também é o meio ambiente. A substituição do óleo pelo gás, segundo a estatal, vai permitir que, anualmente, 1,2 milhão de toneladas de gás carbônico deixem de ser liberadas na atmosfera. O benefício ambiental é grande, pois parte do gás de Urucu que não era reinjetado nos poços vinha sendo queimado na atmosfera no processo de produção de petróleo.

O presidente da Eletrobrás, empresa que faz a conversão das térmicas, José Antonio Muniz Lopes, afirmou que está correndo contra o tempo para concluir a tarefa nas sete térmicas até 30 de setembro. A partir dessa data a Petrobras não vai mais fornecer óleo combustível para termelétricas da região. "No momento, a carga de Manaus está muito alta e não podemos tirar as máquinas para fazer a conversão, que é um processo lento. Temos um compromisso com o presidente Lula de concluir até setembro", disse.

Em Manaus serão quatro termelétricas da Amazonas Energia, subsidiária da Eletrobrás - Aparecida, Mauá (ambas com atendidas por ramais do gasoduto), Cidade Nova e São José. A lista inclui Electron, da Eletronorte. Juntas, as cinco têm capacidade de gerar 1.078 MW. Outras cinco usinas de produtores independentes acrescentam outros 422,8 MW.

A conversão das usinas anima produtores de equipamentos. A GE informou que assinou contrato com a Breitener Energética, produtora independente, para instalar 46 geradores a gás de baixa emissão, que vão gerar 120 MW. A Wärtsilä também informa que negocia turbinas para as térmicas Rio Amazonas, Manauara e Gera.

Caberá à Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) distribuir todo o gás oriundo de Urucu e, no futuro, de Juruá. Flávio Decat, diretor de distribuição da Eletrobrás, disse que a estatal também vai instalar pequenas máquinas geradoras nas cidades atendidas por ramais do gasoduto, permitindo o início da eletrificação rural na Amazônia. "É uma série de máquinas a cabo que chamamos de 'jabuticabas' ao longo do gasoduto". A Petrobras construiu ramais em Coari, Codajás, Anori, Anamã, Caapiranga, Manacapuru e Iranduba, cidades que juntas têm 265 mil habitantes.

Em seis das sete cidades onde o projeto já está fechado (a exceção é Iranduba) serão gerados 68 MW por esse tipo de máquinas, cuja a menor tem potência de 1,7 MW.

A atual capacidade do gasoduto permite transportar 4,5 milhões de metros cúbicos de gás ao dia. Até julho, com mais duas estações de compressão, ela sobe para 5,5 milhões de metros cúbicos. Esse volume é o que está previsto no contrato de suprimento firmado com a Cigás, por 20 anos. O restante do gás continuará a ser reinjetado nos campos de Urucu até que o mercado cresça. As térmicas vão ficar com quase 90% desse volume; o restante irá para o polo industrial da Zona Franca de Manaus e outros consumidores. A Reman, refinaria de óleo da Petrobras em Manaus, já está consumindo 250 mil metros cúbicos de gás ao dia em suas caldeiras e fornos.

(Ivo Ribeiro e Cláudia Schuffner)

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